Hoje o mar fez-se calmo
Em sua imensidão de bordas infinitas
Eu o observo aqui da areia
Esfolada, ralada de ser presente um dia de ira
Hoje a vida fez-se dócil
Nem parece a mesma que arrebentou o meu peito
Dá-me trégua, tomo um ar, me recomponho
Cuido das feridas, do corpo, da alma e do pouco que me restou direito
Hoje o amor faz-se presente
Chega tímido, calado, sem dar explicações
Traz calor, desculpa-se no olhar
Retoma seu lugar que nunca se fez ausente
Hoje o dia foi de sol
Nos leva a praia, nos despe a alma e o corpo
Reencontro o mar, o mesmo que estive em suas tormentas
Vejo o amor, colorido, sinto o vento,
Me vejo ao longe e devagar assisto ao meu retorno
Fabi_19.mai.19
De todos os recomeços
Este foi o mais intenso
Da vida e seus tropeços
Foi este sem alento
Do malabarismo da vida
Tornou ao chão o que equilibrava-se
E harmoniosamente funcionava
Ao compasso, sua estabilidade fixava-se
Assistir ir embora o amor-próprio
A bondade, a sensatez, a alegria
Em uma avalanche que me esmagava
Impossível ter o controle da própria vida
Meu bom coração foi perdendo o tino
A cor, a luz e o sorriso conhecido
Tentando adaptar-se ao que julgava novo aprendizado
Não percebeu a linha tênue do que é benevolência e maldade premeditada
Dores nunca vividas comprometeu o discernimento
Do que é certo e permitido
Do que é cuidado e do que é arrependimento
Do que é confiança e amor verdadeiramente dito
Em nome de ideias de fraternidade
Fé nas transformações e disposições
Mergulhei, abracei, me dediquei
Acreditei piamente nas melhores intenções
Ao passar o tempo, desconfiei que havia algo errado
Ignorei, acreditei novamente no amor humano
Aceitei como novo aprendizado considerando o tempo
Que revela toda a verdade qualquer ser humano
Eu estava a considerar, a revelar meu lado bom
Mas a vida quem me mostrou o contrário
Eu é quem deveria estar atenta
Aos sinais sutis que eu ignorava-os
Para você que ve a vida como eu
Quando tudo for tormenta e parecer não valer a pena
Saiba que o universo prepara o seu livramento
Depois das dores, entenderá os desígnios e concatena
Eleve seu coração diante do ódio gratuito
Transborde amor diante do desprezo intencional
Tenha compreensão quando não te considerarem em nada
Pois a prova e expiação é para todos
E só o coração que transborda atitudes de amor é quem vence no final
Depois dos ataques, tristezas e decepções
Vemos a vida florescer surpreendentemente a sua volta
E descobrimos o quanto nos doamos verdadeiramente ao outro
Ao reencontrar-nos em tudo aquilo renunciado, reviravolta
Não há arrependimentos no coração verdadeiro
A sensação é de dedicação leal cumprida como ninguém
Alma preenchida do que foi dado de amor genuíno
E a compreensão de que cada um valoriza com o coração que tem
E nessa linda fase em que novamente me inspira a escrever
E flui surpreendentemente os bons frutos colhe
Percebo que revive esta alma e coração nobre
Leal aos princípios do amor, que semeia e não tolhe
Depois de várias páginas escritas
Contente penso que preciso parar
É lindo ver como flui lindamente as palavras
De um coração leve, desintoxicado e que transborda amor para doar
Finalizo então minhas humildes rimas
O mar ali atrás me chama à vida
O sol me aquece e entusiasma a calma
Dizendo: vai menina! O mundo é teu, há muitos apaixonados por sua alma!
Fabi_Ago/2019
Seriam os sentinelas a esperança?
Pensamentos tão sozinhos
Ecoam no silêncio de minha alma
Que rasga afiada como lança
Depois de tanto trabalho
Depois de retirado tudo o que era preciso
Me deparo com a imensa sala vazia
Fria, em penumbra e sem cor
Uma mistura de alívio e de "jazia"
As paredes refletem uma tristeza calma
Sozinha, serena, envelhecida e relexiva
Um adeus necessário e acolhido
E na pele ainda aquela sensação do abraço de ida
Um passado presente no vazio
Busco inspiração para as novas esolhas
Tudo que encontro é um coração
Esfolado, traído, mal cuidado
E um bocadinho de lembranças boas
Ouço a calma, ainda sinto vida
Em paz com todo aquele vazio
Triste, pela tristeza silenciosa
Velo por tudo que ali preenchia, ter ido
Permito-me ao tempo que é preciso
Observo calada ao meu redor
Como um comboio prestes a partir
A espera da hora certa a seguir
Aproveito aquela imensidão
Busco anseios, desejos e inspiração
Há fagulhas que me animam
Mas não suficientes para encher um coração
Tenho saudades do que era radiante
Da alegria inabalável e contagiante
Hoje nem as rimas se organizam
Vem primeiro o que era depois
E para o fim, o que era antes
Daquele coração que sentava e escrevia
Sem pausas, como alguém que retrata o que viveu
Hoje fica horas a olhar para o papel
Com a caneta em riste, a observar para dentro de si, o breu
Exprimir a sala vazia, escura e silenciosa
É viver a tristeza sei lá quantas vezes
Ela não permite-me palavras elaboradas
E faz pesar as rimas por muitas vezes
Insisto em dizê-la que a vejo
Que estou atenta e deixo-a despercebida
É preciso o tempo e seus efeitos
Não que seja a panacéia depois da tormenta
Que talez seja a luz para a própria vida
O tempo muda de valor a essa altura
Faz-se dia a própria noite
Os segundos viram horas à revelia
Descompassa para que à nós, ela seja justa
A isto exige-nos afinal os ouvidos da alma
A reconhecer as notas da nova música
Que em silêncio absoluto, nos ensurdece
Por trazer nós de nós mesmos na forma mais pura
Lidar com isto anestesia
Procuro reações pensamentos e explicações
Me procuro, busco em cada detalhe da vida
E só há: quarto vazio, eu, o silêncio e as emoções
Fabi_05.Jul.19